sábado, 9 de julho de 2011

Brasil capta US$ 500 milhões no exterior com menor taxa de juros da história

A emissão de títulos da dívida brasileira no exterior pagará a menor taxa de juros da história. Segundo o Tesouro Nacional, responsável pela operação, serão pagos 4,188% ao ano, patamar mais baixo alcançado para papéis em dólar com prazo de dez anos. Ao todo, foram captados US$ 500 milhões de investidores norte-americanos e europeus.

Para papéis de dez anos, a menor taxa até agora tinha sido de 4,875% ao ano, obtida em duas captações, em abril e julho de 2010. A emissão desta quinta foi o primeiro lançamento de títulos da dívida externa no ano. As últimas operações tinham ocorrido em setembro e outubro do ano passado. Os recursos captados no exterior serão incorporados às reservas internacionais no próximo dia 14.
A taxa de juros que o Tesouro deve pagar para estes papéis nos próximos 10 anos representa um terço da Selic, taxa básica de juros da economia. A alíquota, atualmente em 12,25%, definida a cada 45 dias pelo Comitê de Política Monetária (Copom) é a referência para corrigir um terço do total da dívida brasileira em reais.
Ao emitir no exterior, o governo pega dinheiro emprestado dos investidores internacionais por meio do lançamento de títulos da dívida externa, com o compromisso de devolver os recursos com juros. Isso significa que o Brasil devolverá o dinheiro daqui a dez anos com a correção dos juros acordada, ou seja, de 4,188% ao ano.
O fato de os investidores aceitarem taxas menores significa maior grau de confiança dos investidores de que o Brasil conseguirá pagar a dívida a contento. Como a demanda foi elevada, maior até do que a oferta, foi possível reduzir a promessa de juros. O valor exato da procura não foi divulgado.
Existe a possibilidade de o Tesouro oferecer outros US$ 50 milhões no mercado asiático.
8/7/2011 , Correio do Brasil

quinta-feira, 7 de julho de 2011

História da cachaça - vamos dizer que seja verdade!!!

Você sabia?
Momento Manguaça Cultural

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo.
Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.
Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou.

 
O que fazer agora?

A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.
No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado.
Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.
Resultado: o 'azedo' do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente.
Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome 'PINGA'.
Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de 'ÁGUA-ARDENTE'
Caindo em seus rostos escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar.
E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.

(História contada no Museu do Homem do Nordeste).

Uma nova sociedade ou um tsunami social-ecológico? Por Leonardo Boff

No último artigo aventei a idéia, sustentada por minorias, de que estamos diante de uma crise sistêmica e terminal do capitalismo e não de uma crise cíclica. Dito em outras palavras: foram destroçadas as condições de sua reprodução seja por parte da devastação da natureza e dos limites alcançados de seus bens e serviços seja por parte da desorganização radical das relações sociais, dominadas pela economia de mercado com a predominância do capital financeiro. A tendência dominante é pensar que se pode sair da crise, voltando ao que era antes, com pequenas correções, garantindo o crescimento, resgatando empregos e assegurando lucros. Portanto, continuarão os negócios as usual.

As bilionárias intervenções dos Estados industriais salvaram bancos, evitaram uma derrocada sistêmica, mas não transformaram o sistema econômico. Pior ainda, as injeções estatais facilitaram o triunfo do capital especulativo sobre a economia real. Aquele é tido com o principal deslanchador da crise, comandado por verdadeiros ladrões que colocam o lucro acima do destino dos povos, como se viu agora com a Grécia. A lógica do lucro máximo está destruindo os indivíduos, as relações sociais, penalizando os pobres, acusados de dificultar a implantação do capital. A bomba foi mantida com o estopim. Um problema maior qualquer poderá acender o estopim. Muitos analistas se perguntam amedrontados: a ordem mundial sobreviveria a outra crise do tipo da que tivemos?
O sociólogo francês Alain Touraine assevera em seu recente livro Após a crise (Vozes 2011): ou a crise acelera a formação de uma nova sociedade ou vira um tsunami que poderá arrasar tudo o que encontrar pela frente, pondo em perigo mortal nossa própria existência no planeta Terra (p. 49.115). Razão a mais para sustentar a tese de que estamos em face de uma situação terminal deste tipo de capital. Impõe-se a urgência de pensar valores e princípios que poderão fundar um novo modo de habitar a Terra, organizar a produção e a distribuição dos bens, não só para nós (superar o antropocentrismo), mas para toda a comunidade de vida. Este foi o objetivo da produção da Carta da Terra, animada por M. Gorbachev que, como ex-chefe de Estado, da União Soviética, conhecia os instrumentos letais disponíveis para a destruição até da última vida humana, como afirmou em várias reuniões.
Aprovada pela UNESCO em 2003, ela contém, efetivamente, “princípios e valores para um modo de vida sustentável como critério comum para indivíduos, organizações, empresas e governos”. Urge estudá-la e deixar-se inspirar por ela, sobretudo agora, na preparação da Rio+20.
Ninguém pode prever o que virá após a crise. Há apenas insinuações. Estamos ainda na fase do diagnóstico de suas causas profundas. Lamentavelmente são, sobretudo, economistas que fazem análises da crise e menos sociólogos, antropólogos, filósofos e estudiosos das culturas. O que está ficando claro é o seguinte: houve um triplo descolamento: o capital financeiro se descolou da economia real; a economia em seu conjunto, da sociedade; e a sociedade em geral, da natureza. Esta separação criou uma fumaça tal que já não vemos quais caminhos seguir.
Os “indignados” que enchem as praças de alguns países europeus e do mundo árabe, estão colocando este sistema em xeque. Ele é ruim para a maioria da humanidade. Até agora eram vítimas silenciosas. Agora gritam alto. Não só buscam emprego, mas reclamam direitos humanos fundamentais. Querem ser sujeitos, vale dizer, atores de outro tipo de sociedade na qual a economia esteja a serviço da política e a política a serviço do bem viver das pessoas entre si e com a natureza. Seguramente não basta querer. Impõe-se uma articulação mundial, a criação de organismos que viabilizem um outro modo de conviver e uma representação política ligada aos anseios gerais e não aos interesses do mercado. Trata-se de refundar a vida social.
Por mim, vejo os indícios, em muitas partes, do surgimento de uma sociedade mundial ecocentrada e biocentrada. O eixo será o sistema-vida, o sistema-Terra e a Humanidade. Tudo deve servir a esta nova centralidade. Caso contrário, dificilmente evitaremos um tsunami ecológico-social possível.
Em 06.07.11 (Correio do Brasil)
Leonardo Boff é autor de Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu. Record 2010.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Governo amplia faixa etária para rastreamento de câncer de colo de útero

O Ministério da Saúde divulgou nesta segunda-feira novas diretrizes nacionais para o rastreamento de câncer de colo de útero. Segundo o governo, haverá a ampliação na idade máxima para a realização do exame preventivo, que vai de 59 anos para 64 anos. O exame, conhecido como papanicolau, deve ser feito periodicamente a partir dos 25 anos.

O exame é capaz de identificar lesões que antecedem o câncer, permitindo o tratamento antes que a doença se desenvolva. Segundo o ministério, o papanicolau deverá ser feito, inicialmente, anualmente. Após dois resultados negativos consecutivos, o exame deverá ser feito com intervalo de três anos.
No caso das mulheres com mais de 64 anos e que nunca realizaram o papanicolau, devem ser feitos dois exames preventivos com intervalo de um a três anos. Se os dois resultados forem negativos, essas mulheres poderão ser dispensadas de exames adicionais.

Segundo a ginecologista Flávia de Miranda Corrêa, técnica da divisão de Apoio à Rede de Atenção Oncológica do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a ampliação da faixa etária para o rastreamento do câncer do colo do útero segue a tendência internacional relacionada ao aumento da longevidade.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer do colo do útero é o segundo tumor mais frequente na população feminina, atrás apenas do câncer de mama. Em 2010, foi responsável pela morte de 4.800 mulheres e por 18.430 novos casos.

As novas diretrizes fazem parte do Plano Nacional de Fortalecimento das Ações de Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do Câncer de Colo do Útero, do Ministério da Saúde, lançado pela presidente Dilma Rousseff, no último mês de março. O plano prevê ainda um programa de capacitação de ginecologistas para padronizar o diagnóstico de acordo com as novas diretrizes.

Dermatologia - Pesquisadora da USP cria novo protetor solar

Dermatologia
Pesquisadora da USP cria novo protetor solar

Filtro solar à base de fosfato de cério é mais eficaz e durável que os comercializados atualmente

Uma pesquisa desenvolvida no Departamento de Química da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto identificou um novo filtro solar, à base de fosfato de cério, mais eficaz que os utilizados atualmente, à base de óxidos de zinco e titânio.

“Com esse produto o cosmético terá maior duração de validade”, afirma Juliana Fonseca de Lima, que iniciou a pesquisa ainda durante sua graduação. A pesquisa foi desenvolvida entre 2006 e 2008, mas só, agora, após a obtenção do registro de patente no Instituto Nacional de Pesquisa Industrial (Inpi), está sendo divulgada.

Segundo Juliana, o óleo produzido com fosfato de cério é menos degradado quando comparado aos óxidos de zinco e tem maior capacidade de absorção de radiação ultravioleta (UV). A empresa carioca Silvestre Labs já firmou contrato para produzir protetores solares usando o produto pesquisado.

sábado, 25 de junho de 2011

Curiosidade geo-política: diferença entre Grã Bretanha, Reino Unido e Inglaterra

Muita gente se confunde a respeito do significado de Grã-Bretanha, Reino Unido e Inglaterra, quando na verdade não o são. Existem diferenças entre eles, que são explicadas logo abaixo:

INGLATERRA
É um país que tem como capital a cidade de Londres. Ao longo da história, a Inglaterra conseguiu se impor politicamente sobre alguns países vizinhos e passou a controlar um Estado batizado de Reino Unido. No século 19, com a Inglaterra à frente, o Império Britânico se tornou um dos maiores da história, com uma extensão territorial equivalente a um quarto do planeta!

GRÃ-BRETANHA
É o nome da grande ilha onde ficam três países: Inglaterra, País de Gales e Escócia. Com quase 230 mil km2 de área, ela tem perto de 1000 km de comprimento de norte a sul e pouco menos de 500 km de leste a oeste. O termo “Grã-Bretanha” muitas vezes é usado como sinônimo de “Reino Unido” – o que não é inteiramente correto, pois um dos países que formam o Reino Unido não fica nessa ilha.

BRETANHA
O nome deriva da grande ilha onde fica a Inglaterra, mas, quando alguém menciona apenas “Bretanha”, está se referindo não a um território inglês, mas a uma região na França. A província da Bretanha é a maior área costeira francesa e tem como capital a cidade de Rennes. Por volta do século 6, essa região foi invadida por habitantes da atual Grã-Bretanha, os bretões, dando origem ao nome em comum.

REINO UNIDO
É um Estado formado por quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A chefe de Estado é a rainha Elizabeth II e o de governo um primeiro-ministro, eleito por um Parlamento central, em Londres. Nas grandes questões de governo, como política econômica, quem manda é esse Parlamento. Mas Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte também têm assembléias nacionais, com certa autonomia para tratar de questões mais locais, como saúde.

ILHAS BRITÂNICAS
É um arquipélago formado por cerca de 5 mil ilhas. As duas maiores são a Grã-Bretanha e a ilha da Irlanda – onde ficam dois países, a Irlanda do Norte (membro do Reino Unido) e a República da Irlanda, também chamada de Eire (um Estado independente). Além das duas “grandalhonas”, fazem parte desse arquipélago milhares de ilhas menores, como as Órcades, Shetland, Hébridas, Man e ilhas do Canal (como Jersey), entre outras.


Como os árabes salvaram a cultura ocidental - entrevista com Jonathan Lyons

Jonathan Lyons trabalhou como correspondente da Reuters no Oriente, até se dedicar mais a fundo a estudar a relação entre leste e oeste.
Em tempos de radicalização de posições na oposição Oriente versus Ocidente, vale a pena lembrar que árabes e ocidentais não são inimigos naturais, e que a cultura que permeia Europa e América deve muito aos muçulmanos. É o que procura fazer o americano Jonathan Lyons, do Centro de Pesquisas sobre Terrorismo Global da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália. Em A Casa da Sabedoria (tradução de Pedro Maia Soares, Zahar, 294 páginas, 44 reais), Lyons conta como os árabes, que dominaram a Península Ibérica por oito séculos, assumiram o papel de guardiões e disseminadores do saber clássico ocidental, em um momento em que a Europa estava imersa na escuridão da Idade Média. E, mais do que isso, criaram a Renascença, período em que os europeus se voltaram à cultura clássica, e cuja autoria tomam para si.
O título do livro é emprestado da biblioteca criada em Bagdá no século IX para abrigar, traduzir e expandir conhecimento, muçulmanos recuperaram, copiaram e difundiram textos gregos sobre filosofia, ciência e astronomia, por vezes checando e corrigindo dados encontrados. Os documentos foram levados às terras de língua árabe, formando também a base para os trabalhos originais de pensadores islâmicos.
Foi da grande admiração de Lyons por esse trabalho empreendido pelos árabes que surgiu a motivação para contar esse trecho da história da ciência um tanto esquecido no Ocidente. Sem esse trabalho, diz o autor de A Casa da Sabedoria, o mundo apresentaria uma configuração muito diversa da que tem hoje. Mais do que isso: sem esses esforços muçulmanos, os ocidentais poderiam não ter a noção de que são capazes de explorar e manipular o mundo à sua volta sem entrar em conflito com Deus.
Em entrevista ao blog VEJA Meus Livros, Jonathan Lyons fala sobre as razões que fizeram com que a operação pró-conhecimento efetuada pelos árabes tenha pouco ou nenhum destaque atualmente, em especial no Ocidente – a principal delas é, como se pode imaginar, o olhar preconceituoso formado nos últimos anos sobre o Islamismo. E explica como os pensadores árabes estabeleceram os fundamentos da Renascença ocidental – inovações erroneamente atribuídas aos europeus.
.Quais as principais contribuições árabes para a cultura ocidental?
Há duas maneiras de abordar a questão. Primeiro, nós podemos listar os campos específicos, ideias e tecnologias que são tributários à cultura árabe e muçulmana. Aqui, entram a navegação astronômica, os estudos de anatomia, a arte de fazer mapas, a álgebra e a trigonometria, entre muitos outros. Mas há uma contribuição mais profunda, que eu acredito ser fundamental para o que hoje entendemos como Ocidente. É a ideia de que o homem pode explorar e até manipular o mundo sem interferir nos poderes de Deus. Isso abriu deu aos homens poder em um grau considerável, mas não absoluto, sobre seu mundo. E essa é a história subjacente de A Casa da Sabedoria.

No livro, o senhor conta como grande parte da pesquisa produzida pelos árabes era desvinculada da fé islâmica e da obrigação de estabelecer doutrinas.
Sim, mas, antes de tudo, é preciso dizer que boa parte do trabalho científico foi, de fato, desenvolvida para atender a questões da prática religiosa, como traçar a direção correta de Meca para rezar (os muçulmanos fazem suas orações voltados para Meca) ou para fazer a peregrinação e estabelecer os horários das cinco orações diárias, determinados por medições celestes. O interessante é que os muçulmanos do período medieval aceitaram as orientações dadas pelos cientistas para essas obrigações religiosas, sem a tensão entre fé e religião que caracteriza a experiência ocidental.

A imagem que os árabes têm hoje no mundo, influenciada pelas práticas terroristas, é muito diferente daquela que lhes era correspondente durante a Idade Média, quando salvaram parte importante da cultura ocidental. Foram os árabes que mudaram ou nós que mudamos na forma como os vemos?
Não há dúvida de que as sociedades árabe e muçulmana não são mais as líderes do mundo da ciência, da filosofia e das artes. Mas é importante ressaltar que nós não temos muita informação desse processo de declínio, porque, como ocidentais, elegemos o Islã como causa e nos contentamos com essa resposta simples. Por que olhamos automaticamente para as questões do Islã para explicar o mundo muçulmano atual? Eu posso pensar em muitas outras formas de explicar esse universo: a destruição do sistema de irrigação que sustentava o grande império abássida; o desmoronamento do império islâmico em si; a “descoberta” ocidental das raízes comerciais para a Índia e para a China; a desertificação da região central do Iraque e assim por diante. E, enquanto nos obstinamos com o Islã, há cerca de 100.000 documentos científicos nas principais línguas muçulmanas (árabe, turco, persa e urdu), que nunca tiveram atenção acadêmica séria. Em outras palavras, pode haver um mundo inteiro de conquistas científicas e intelectuais lá fora, esperando para serem descobertas. Mas ninguém está olhando.
Por que muito dos avanços conquistados pelos árabes são atribuídos aos europeus do período renascentista?
Durante o período da Renascença, houve uma tentativa deliberada e consciente da crescente classe de “humanistas” de criar uma linhagem nova para a cultura ocidental que ignorasse a contribuição árabe, bem como a experiência da Europa medieval que muito dependia dos muçulmanos. Quando se olha, por exemplo, para o jeito como esses humanistas recontaram a história da álgebra, uma invenção árabe com nome árabe, podemos ver um lento, mas contínuo processo de apagamento dos traços da influência muçulmana. Isso permitiu aos humanistas avançar posições como pretensos fornecedores de uma nova cultura pura do Ocidente, sem a mácula da influência externa árabe. Fruto do empreendimento pró-saber dos árabes, a chamada Renascença é mais uma continuidade do que uma revolução cultural.


As traduções de textos científicos e filosóficos gregos feitas pelos árabes é fiel aos originais ou carrega interpretações influenciadas pela cultura islâmica?
Essa é uma ótima e importante pergunta. A história do Ocidente, como a contam os textos de faculdade, posicionam os árabes como os cuidadores da aprendizagem ocidental – a partir dos grandes textos gregos sobre filosofia, ciência, engenharia etc. –, mas raramente contam quais foram as suas contribuições originais a esse saber. Os árabes não apenas fizeram traduções e cópias de textos clássicos, como também os usaram como ponto de partida para suas próprias pesquisas originais e, mais importante ainda, checaram e frequentemente corrigiram dados e cálculos de astronomia e geografia encontrados. Eles completaram as traduções para o árabe, tornando-as melhores e mais valiosas que as originais. Curiosamente, no entusiasmo da Renascença por textos gregos genuínos, muitas dessas versões árabes melhoradas foram ignoradas ou perdidas. Mas antes, na época medieval, textos sobre a metafísica de Aristóteles e que explicassem um trabalho complexo para leitores e estudantes eram muito populares na Europa. Foi através das lentes árabes, com as inevitáveis influências da cultura islâmica, que boa parte do Ocidente conheceu Aristóteles e a filosofia grega em geral.

Como operava a Casa da Sabedoria?
A Casa da Sabedoria, o título, é, antes de tudo, uma metáfora para a estratégia organizada e deliberada dos governantes do grande império islâmico, com sede em Bagdá, de coletar e expandir sua coleção de aprendizagem e sabedoria. Os estudiosos defendem, por vezes de forma apaixonada, que se tratava de um espaço real e duradouro. Outros, no entanto, a veem como uma invenção da história ocidental. Para mim, ela representa a política oficial do Império Abássida para promover o aprendizado. Parece que a Casa da Sabedoria foi modelada após as primeiras bibliotecas reais dos persas e fornecia apoio administrativo e financeiro para a realização de interpretações científicas e filosóficas e para traduções de textos hindus, gregos e persas. Esses textos foram copiados e disseminados amplamente pelas terras de língua árabe e formaram a base para muitos dos trabalhos originais feitos pelos pensadores árabes e muçulmanos.
A contribuição árabe foi fundamental para a construção da cultura ocidental tal como é hoje. Ao longo de oito séculos, os muçulmanos traduziram, por vezes corrigiram e difundiram o conhecimento clássico grego entre si, salvando e entregando aos europeus, que viviam então na Idade Média, um vasto saber. No livro A Casa da Sabedoria (tradução de Pedro Maia Soares, Editora Zahar, 294 páginas, 44 reais), o americano Jonathan Lyons, do Centro de Pesquisas sobre Terrorismo Global da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália, se dedica a mostrar como os árabes foram inclusive responsáveis pela Renascença, período cuja autoria os humanistas europeus procuraram tomar.

Islamismo e Catolicismo são religiões aparentadas na origem. Por que os árabes incentivaram a leitura enquanto os católicos a censuravam?
A resposta está na estrutura das duas fés. O Islã não tem uma hierarquia, embora sempre tenha havido tentativas dos poderosos de impor uma. Como resultado, cada crente tem sua responsabilidade vinculada diretamente a Deus, e é responsável por ler e interpretar a seu modo o Alcorão, que eles acreditam ser a própria palavra divina. Definir quem é um mau muçulmano e quem é um bom muçulmano é um dos maiores desafios para a comunidade islâmica. No Irã, por exemplo, os clérigos muçulmanos que estão no poder (responsáveis por barbaridades) costumam definir seus rivais políticos como “anti-islâmicos”. Mas isso realmente não tem sentido, porque não há nenhuma autoridade central para determinar exatamente o que significa ser um bom muçulmano, embora haja princípios acordados a serem seguidos. Na tradição cristã, e aqui estou me referindo principalmente à Igreja Católica, há uma autoridade reconhecida na figura do Papa. Essa hierarquia determina exatamente o que é preciso para ser um bom católico. Em um ambiente como esse, é menos importante ler do que obedecer. Além disso, há uma conhecida forte tradição dentre o sacerdócio católico de que se valorizar a leitura entre o clero, que deve interpretá-la para os fiéis.
Como as diferenças entre as duas religiões – Islamismo e Catolicismo – se refletem em diferenças entre as culturas árabe e ocidental?
Um dos maiores desafios para qualquer estudante de religião – e eu me doutorei em Sociologia da Religião – é determinar onde acaba a “cultura” e começa a “religião”. No caso do Islã, com a morte do profeta Maomé, a comunidade muçulmana perdeu ao mesmo tempo seu líder político e espiritual, e deixou de ter alguém a quem recorrer para obter uma decisão “islâmica” sobre uma questão social, religiosa ou política. Com o tempo, como acontece em qualquer religião, os ensinamentos e ideias do profeta foram registrados por uma crescente classe de sacerdotes, trabalho concluído no período medieval, centenas de anos após a morte de Maomé. Valores culturais, preocupações e questões desse período posterior se confundiram com os ensinamentos maometanos. Então, coisas que são imperativos culturais tornaram-se imperativos religiosos.
A história de como a valorização do conhecimento pelos árabes transformou a civilização ocidental é contada através da figura do filósofo Adelardo de Bath. Qual a sua importância nesse processo?
Adelardo de Bath foi uma figura notável que anulou o sentimento antimuçulmano prevalecente em sua época e procurou ver o que os árabes poderiam ensinar ao Ocidente. Infelizmente, não se sabe muito da sua motivação e experiência pessoais. Em A Casa da Sabedoria, eu tento trazer Adelardo à vida porque ele é um dos meus heróis. Mais especificamente, ele voltou para casa com os “elementos de Euclides”, a fonte do nosso estudo de geometria, trabalhos de astronomia e astrologia, primeiras noções de química. Mas o maior tesouro que ele trouxe foi a permissão para o Ocidente estudar o mundo ao nosso redor.
Como foi feita a pesquisa para escrever o livro?
Eu iniciei esse projeto com a ideia de explorar ligações entre a poesia árabe e o surgimento da literatura secular ocidental. Queria, por exemplo, olhar para o relacionamento entre a poesia cortês da Espanha islâmica, conhecida como al-Andalus, e os trovadores. Mas, enquanto pesquisava a transmissão cultural do leste para o oeste, fiquei fascinado com questões maiores de ciência e filosofia. A Casa da Sabedoria é, na verdade, dois livros em um: a história da ciência e filosofia árabe no período medieval, e a história sobre como o conhecimento viajou para o Ocidente e os efeitos que produziu ao chegar lá.

Por Veja em 25/06/2011